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Especialista russo: exército brasileiro é 'uma espécie de brincadeira' (EXCLUSIVO)

Política

POR Paulo Portaljipa EM 27/05/2018 ÀS 02:30:29

Especialista russo: exército brasileiro é 'uma espécie de brincadeira' (EXCLUSIVO)

Qual é o futuro da relação entre Moscou e Brasília que anteriormente não tem podido se gabar de uma dinâmica positiva? O que devemos esperar das exportações de trigo russas? A Sputnik discutiu esses e outros assuntos com o presidente do Conselho Empresarial Rússia-Brasil, Sergei Vasiliev, durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo.

Como já observamos em outra matéria, o fórum deste ano foi marcado pela presença escassa dos representantes brasileiros. Fizemos questão de discutir o assunto com Vasiliev, especialista que se engaja diretamente na parceria entre as duas nações e a conhece por dentro. Na opinião dele, a estagnação no relacionamento bilateral se deve, em primeiro lugar, aos processos internos que estão ocorrendo no país latino-americano nesse momento.

"Sim, no ano passado houve um evento latino-americano, nesse ano não chegou a aparecer. […] Não é de estranhar, pois os acontecimentos tão dramáticos estão em andamento no Brasil. Isso não quer dizer uma mudança nas prioridades, pois certamente um ano atrás estive em uma reunião da Comissão Intergovernamental no Brasil, e a conversa foi muito boa", disse o alto responsável.

Eleição 'paralisante'

De acordo com ele, a coisa é que, na época de Dilma, a presidente foi muito criticada pela diminuição de parcerias externas, pela redução dos índices comerciais. Já com a chegada do governo novo, ressalta Vasiliev, foi anunciada uma política de abertura.

"É assim mesmo, mas, por outro lado, estão na época da campanha eleitoral que literalmente paralisa todo o país. Por exemplo, estive no Brasil em março, em uma reunião do BNDES. Conheci o presidente do banco, já é o terceiro nos últimos dois anos. Ele conhece bem o presidente [Temer]. Agora vai para férias de seis meses. Por quê? Pois tem uma regra de que, caso uma pessoa seja candidato [tem que sair]. E ele será um candidato técnico, claro que não vai ser eleito, mas sai e haverá seu chefe em exercício", conta o economista com ar pasmo.

Assim, todos os participantes da campanha, inclusive os prefeitos e governadores, têm que temporariamente sair dos postos. Isso, diz Vasiliev, "quebra todo o sistema por meio ano".

Entretanto, ressaltou que a agenda latino-americana na política exterior russa merece um destaque especial, propondo que seja justo organizar um evento separado para esses fins.

"Acredito que, e já discuti isso com colegas, que é preciso convocar um fórum separado Rússia-América Latina. Não obrigatoriamente durante o SPIEF, pois já está todo o mundo aqui, não tem espaço, a imprensa está ocupada. Mas tem que ser um evento separado, em Moscou, para que seja marcante […] Em princípio, acho que a Roscongress [fundação organizadora de todos os maiores fóruns russos] pode gostar da ideia", manifestou.

Além do mais, o especialista destacou a imprevisibilidade da futura eleição, com "nenhum candidato viável", e a estrutura partidária muito "vulnerável" que pode mudar sua configuração após o voto.

Enquanto isso, os eventos com outras nações latino-americanas continuam em curso.

"Depois de amanhã, vou viajar para Lima, onde ocorrerá a conferência da Assembleia Geral da Associação dos Bancos de Desenvolvimento da América Latina. Vou falar com todos, não somente com os brasileiros. Em geral, está muito complicado com eles. Não há eventos, eles não vêm aqui, nós também não. Mas vai começar do zero após as eleições", frisou.

Ao mesmo tempo, Vasiliev destacou que o governo Temer conseguiu fechar várias tarefas que tinham se arrastado por anos, como a reforma da Previdência.

"Apesar da bagunça, Temer tem uma maioria sustentável que conseguiu promover tudo isso. Isso é uma grande conquista, tentavam aprovar durante 20 anos. Mas ele não tem que se eleger, está com mãos livres", sorriu Vasiliev.

De volta para o 'quintal'?

De qualquer maneira, a diminuição dos vínculos brasileiros com os países em desenvolvimento continua suscitando repercussões, inclusive de uma nova virada do governo para Washington. Entretanto, o entrevistado acredita que a razão principal reside nas "doenças" da economia nacional do país e não nas reviravoltas ideológicas.

"Não é assim. Quando viajamos para lá no período entre 2008 e 2010, houve um crescimento grande. Eles se comunicavam conosco assim… Era tudo muito legal para eles, tranquilo. Depois veio a crise e chegou uma atitude nova, mais calorosa", confessou.

Para mais, observou que a relação comercial russo-estadunidense é bastante "conflituosa" e não disfruta de muito investimento.

"Claro que há dependência de mercado de ações, mas é assim… Caso conduzam uma política eficiente, chegará dinheiro. Isto não é controlado pelos americanos. Mas, pelo visto, Trump não liga nada para o Brasil. Não é aquele país que esteja no centro de suas atenções, bem como na de Obama", opinou.

Afinal, qual é o futuro da relação russo-brasileira?

Em nossa conversa com o presidente do Conselho Empresarial Rússia-Brasil, discutimos também a recente autorização das exportações de trigo russo para o território brasileiro. Sabe-se que o acordo foi resultado de uma negociação que durou por quase 10 anos.

"É um avanço inédito. Vamos ver como estarão as nossas entregas. Anteriormente, não dava em nada […] Agora, conseguiram em apenas um ano. Exatamente isso quer dizer que o governo se torna cada vez mais dinâmico, pois ele resolveu o problema. O antigo não conseguiu, apesar de ter sido mais pró-russo", observou.

Em relação a isso, sublinhou o caráter "extremamente burocrático" dos respectivos processos no Brasil, como grande obstáculo às atividades bilaterais.

Sputnik Brasil: Então, como o senhor avalia as chances russas de brigar com Argentina por essa fatia do mercado brasileiro?

Sergei Vasiliev: É uma pergunta difícil. Vai depender muito do preço do real e da moeda argentina. Tanto mais que na Argentina efetuaram uma desvalorização. Mas a ideia geral foi essa: o trigo argentino vai para sul, o nosso vai para norte. […] Mas por outro lado, no norte, para Fortaleza, e aí a gente produz pão de mandioca. O trigo aí não se usa. Já agora, com a globalização em curso, o volume do trigo vai aumentando.

Quanto ao eventual levantamento do embargo russo à carne brasileira, o especialista informou que hoje em dia acontece um fenômeno interessante: aumenta a produção da carne russa, por isso o país já não precisa produto brasileiro em volumes como antes.

"O avanço com o Brasil acontecerá caso haja cooperação na área de ciência e tecnologia. Mas é mais difícil. Isso não dá para ver. Em relação à carne, dá: tem toneladas, dezenas de toneladas, enquanto esses projetos acabam por não vir à tona", argumentou.

Ao mesmo tempo, Vasiliev frisa que os problemas da economia brasileira são os mesmos que da russa: esgotamento do potencial de commodities e a necessidade de mudar a "mentalidade" e criar novas indústrias ricas em tecnologia, capazes de concorrer no mercado global.

Nesse aspeto, propõe o exemplo da Coreia do Sul, que conseguiu alcançar os ritmos econômicos sem precedentes por causa de não ter o luxo na forma de recursos naturais e obrigação de encontrar novos caminhos.

S: Quanto à cooperação técnica, vale abordar também o tema de compras de armamentos. Durante muitos anos, houve negociações sobre a possível importação dos sistemas russos Pantsir-S. Afinal das contas, o lado brasileiro disse abertamente: não temos recursos para isso.

SV: O Brasil não corre ameaça nenhuma de fora, a sério. Lá, o exército é uma espécie de brincadeira. Às vezes é cara, às vezes não. Olhe para o mapa — parece uma ilha. Quem vai ameaçar eles, Uruguai ou Paraguai? Tem selva em todo o redor.

Contudo, Vasiliev revelou que algumas negociações nesse campo estão sendo travadas, inclusive no que se trata da ajuda russa no combate ao tráfico de drogas e das atividades policiais. Além disso, mencionou a licitação brasileira no campo de ferrovias que a Rússia tem chance de ganhar. Nesse aspecto, Moscou pode virar um grande parceiro brasileiro de novo, até com perspectiva de resgatar o país da paralização que está vivendo hoje em dia com greves de escala nacional por causa da mudança no preço de diesel.

 
 
 
 
 
 
 
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